Tenho vergonha de contar-lhe que eu andava nas nuvens. E la¬mento mais ainda ter de lhe dizer que me sentia como se o tivesse conhecido durante toda a minha vida. E vou agravar as coisas, con¬tando ainda que achava que ninguém me entendia do mesmo jeito que ele. E, como perdi toda a credibilidade com você, também posso dizer que não sabia que era possível ser tão feliz. Mas não vou for¬çar a barra contando-lhe que ele me fazia sentir segura, sexy, inteli¬gente e meiga. (E, lamento, mas realmente devo dizer-lhe que achava que havia encontrado minha outra metade e agora eu era inteira, e prometo que vou parar por aqui.) (Exceto talvez, para mencionar que ele sabia rir e era ótimo de cama. Agora falo sério, fico por aqui, já disse tudo mesmo.)
Quando começamos a sair juntos, eu trabalhava como garçonete quase todas as noites; então, só podia vê-lo quando acabava de trabalhar. Mas ele me esperava acordado. E, quando eu chegava, exausta, após horas servindo fosse lá o que fosse grelhado ao pessoal de Londres (ou da Pensilvânia ou de Hamburgo, para ser mais exata), ele - até hoje não acredito - banhava meus pés doloridos e os massageava com loção de hortelã para pés da Body Shop. Mesmo sendo mais de meia-noite e ele tendo de estar no trabalho às oito da manhã para ajudar as pessoas a sonegar seus impostos, ou seja lá o que fazem os contadores, mesmo assim ele fazia tudo isso. Cinco noites por semana. E me deixava atualizada quanto às novelas. Ou ia até o posto 24 horas, quando eu ficava sem cigarros. Ou me con¬tava historinhas engraçadas sobre seu dia no trabalho. Sei que é difí¬cil acreditar que qualquer história sobre contabilidade possa ser engraçada, mas ele conseguia.
E, por causa do meu trabalho, nunca podíamos sair aos sábados à noite. E ele não se queixava.
Estranho, não?
Sim, eu também achava
Melancia - MARIAN KEYES pág. 5 e 6.
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